AS CASAS

Agilidade, segurança e conforto. Essas eram as prioridades do grupo Morada Monte Serrat para construção dos novos lares das famílias. Três arquitetos e urbanistas assumiram o desenvolvimento dos projetos arquitetônicos das casas de forma voluntária: Bernardo Bahia, Marcelo Eischstadt Nogueira e Matheus Pivetta. Eles trabalharam de forma conjunta, já que as três casas estão localizadas no mesmo terreno e os moradores são todos da mesma família. 

De forma objetiva e comprometida, eles realizaram entrevistas com as famílias para identificação do programa de necessidades, fizeram levantamento no local e rapidamente seguiram para o anteprojeto. No planejamento, incorporaram as diretrizes de sustentabilidade estabelecidas por consultores especializados voluntários, considerando conforto ambiental, eficiência energética e no uso da água, materiais e componentes. 

Os projetos foram compatibilizados com os de engenharia, desenvolvidos também de forma voluntária pela engenheira Carolina dos Santos Kuhn de Carvalho (projeto estrutural), pela engenheira Marina Catalan Costella (projeto hidrossanitário) e pelo engenheiro Reinaldo Favero Filho (projeto elétrico). O resultado foi um trabalho multidisciplinar, coletivo e eficiente. 

 

Respeito à vida social e valorização da paisagem

Cada arquiteto assumiu o projeto de uma casa, mas cientes de que as arquiteturas deveriam “conversar entre si”. Além disso, era preciso respeitar a dinâmica do cotidiano das famílias e a relação já estabelecida entre as casas. O pátio comum era algo importante, pois os encontros e reuniões com familiares e amigos e as rodas de samba são constantes. Outro ponto fundamental para as famílias: valorizar o privilegiado visual da cidade. Assim, foi criado um espaço de contemplação da paisagem comum a todos no terreno.

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A CASA DO CLEBER 

Cleber vive com a esposa, um filho de nove anos e um bebê, que havia acabado de nascer quando ocorreu o incêndio. “Ele tinha demandas muito específicas porque já tinha iniciado uma construção, com laje e algumas paredes já erguidas. Ele apresentou definições do que ele desejava e a gente enriqueceu”, conta o arquiteto Marcelo Eischstadt Nogueira, que assumiu o projeto dessa casa. 

O projeto, já aprovado por Cleber, prevê três dormitórios, um banheiro e uma sala com dois espaços, jantar e estar, e uma cozinha integrada com balcão. Um pequeno painel separa a área de lavanderia, a qual se abre para o quintal dos fundos da casa. “Na laje sobre os dormitórios, fizemos um solarium, pois ele gostaria muito de um espaço para contemplação da paisagem”, conta Marcelo. O acesso se dá por uma escada externa helicoidal. No local, o arquiteto planejou uma área de estar para descanso e contemplação sob a sombra de uma pitangueira, plantada em um vaso. “Ali ele pode sentar, relaxar e fazer o samba”, diz o arquiteto. Cleber é compositor e até chegou a criar uma música que virou tema do projeto Morada Monte Serrat, inspirado na situação que estão vivendo e na ajuda que estão recebendo.  

Marcelo destaca que a paisagem sempre foi ponto de premissa do projeto. “Ao entrar na casa, uma grande abertura na sala já revela a paisagem. Os dormitórios foram projetados com janelas de canto para garantir insolação e ventilação, o que é sempre uma dificuldade porque estamos trabalhando numa encosta. Essa foi uma estratégia para garantir mais qualidade ambiental dentro da casa”, explica. 

O projeto da casa é uma composição de dois volumes simples, na cor branca e detalhes em vermelho, com diferentes alturas, totalizando 60 metros quadrados de área construída. “Trabalhamos com a área mínima confortável para garantir a qualidade necessária, e não dispendendo áreas maiores para não aumentar o custo de construção. Além disso, a ideia é trabalhar materiais mais simples e de fácil manutenção”, acrescenta Marcelo. 

 

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A CASA DA DONA LEKA 

Dona Leka trabalha como auxiliar de limpeza e mora na casa com dois filhos jovens adultos. O mais velho trabalha como auxiliar de cozinha e o mais novo mantém uma pequena barbearia na própria casa. “A casa antiga era de madeira, sem forro, tinha uma cozinha e sala integrados e três dormitórios. O filho que trabalha com barbeiro usava o quarto para atender. O banheiro ficava na parte de fora da casa. E não tinha área de serviço e nem espaço de varal”, conta o arquiteto Matheus Pivetta, que assumiu o projeto dessa casa. 

Na definição do projeto da casa, já aprovado por dona Leka, o arquiteto planejou volumes sólidos geométricos, em diferentes tons de azul. “São três ‘paralelepípedos’. No maior, bem vertical, estão as atividades de serviço e uso comum. Sala de estar/jantar, cozinha/área de serviço e todos os cômodos desfrutam de um pé-direito duplo”, explica. A partir dessa configuração, projetou um mezanino com acesso ao terraço criado sobre a cobertura do volume menor, onde foram localizados os quartos da dona Leka e o do filho mais velho. 

No terceiro volume, um “paralelepípedo” com uma das suas arestas superiores inclinada, estão o banheiro social e o quarto do filho mais novo. Por se tratar de uma área de pé-direito duplo, o arquiteto criou um mezanino no quarto do rapaz, onde localizou o espaço da cama. A parte inferior fica reservada à “barbearia”, com saída individualizada para atendimentos dos clientes. 

 

A CASA DO PAULO 

Para a casa de Paulo, que mora com a filha, o arquiteto Bernardo Bahia planejou uma edificação com cerca de 65 metros quadrados. O projeto, já aprovado por Paulo, prevê dois dormitórios e uma boa área social, que integra espaço de estar e cozinha, e uma área de serviço. “Na implantação, essa casa ficou com posição bastante privilegiada em relação à vista e em relação aos vazios que conseguimos encaixar no entorno da casa”, destaca o arquiteto. Assim, ele planejou a casa com pé-direito duplo que vai “crescendo” da cozinha em direção ao espaço de estar, abrindo-se em direção à vista. Um grande pano de vidro foi previsto para valorizar a paisagem, voltada para a baía sul de Florianópolis. Além de permitir a contemplação, especialmente do mar e do por do sol, a solução garante excelente iluminação natural nos ambientes internos. Contornando a casa o pátio se estende mais linear, onde estão área de serviço e uma área externa mais privativa. 

“Em relação à volumetria, procuramos fazer uma simplificação volumétrica no sentido de ter uma casa bem resolvida, bem construída com o que tem à disposição, mas que tem uma estética interessante”, explica Bernardo. Assim, idealizou  uma casa “monovolume”, um “trapézio” que se projeta em direção à vista sobre a pedra existente no terreno. “Escolhemos a cor terracota em alusão à própria situação do entorno< Muitas casas da comunidade ficam no próprio tijolo, sem reboco ou pintura. Procuramos entender e respeitar essa situação e não ser muito agressivo na paisagem, no contexto”, argumenta. 

Em atenção às soluções de eficiência energética sugeridas pela consultoria voluntária, Bernardo planejou paredes externas mais espessas do que as internas e isolamento térmico no telhado, para proporcionar um bom isolamento térmico. “Vamos inserir alguns brises para ter controle solar na fachada oeste, principalmente”, acrescenta. 

Bernardo faz questão de destacar o quanto esse projeto está sendo gratificante. “É um projeto que a gente faz para os clientes, mas, de certa forma, faz para a gente mesmo, e também para a cidade. É uma contribuição podemos dar num momento como esse para pessoas que não conhecíamos, mas que apresentaram essa importante necessidade”, afirma. Ele comemora que o grupo inteiro tenha abraçado a causa para ajudar e contribuir. “E contribuir com um comprometimento de alto nível. É um esforço conjunto que está sendo feito para que esse tipo de ação possa se desdobrar, crescer, tomar corpo e continuar acontecendo”, reforça. 

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